4.9.12

Sobre o esquerdo


- E por que você não dá mais uma chance ao rapaz?
- Porque eu estou cansada de dar sempre chance aos outros e cair na mesma armadilha. Dessa vez, vou dar uma chance a mim.
- A chance de ficar sozinha?
- A chance de esperar o certo.
- E como você saberá que é o certo?
- Não é bem uma questão de saber, é de sentir. ­A pessoa simplesmente sente.
Em 1999, a professora apresentou um menino branquinho, de cabelos escuros e meio assanhados, ele estava com uma mochila meio estranha que parecia não ter nada dentro e vestindo um uniforme que conseguia ser mais branco do que a pele por baixo dela. Veio andando em minha direção, deu um Oi entre um sorriso tímido e sentou na carteira em frente a minha. A partir daquele momento, eu senti que estaria destinada a gostar dele pelo resto da minha vida, mesmo sem saber ao certo o que é gostar ou entender aquele misto de enjoo e felicidade e tontura e formigamento em uma parte do corpo não identificada.
A gente ainda fazia a quinta série, mas ele já se apaixonava pelas garotas com perfil para casar. Eu, mesmo sem nunca ter dado sequer um selinho, já dava aula de orientação sexual no recreio. Eu era velha demais para a minha idade, e ele sempre preferiu as garotas mais novas.
Eu era o combo quase aceitável, legalzinha, bonitinha, tirava boas notas e ia para escola de bicicleta. Mas com aqueles diminutivos, não seria boa o suficiente para conseguir o que queria, mas serviu para ser promovida ao papel de melhor amiga. O que rendeu muitos banhos de chuva voltando para casa, passeios de bicicleta, tardes de estudo e muito, muito papo sobre as garotas “fairy tale” que ele gostava.
Só fui descobrir anos depois, quando colocou meu cabelo atrás da orelha antes de me beijar, que era justamente aquilo que eu sentia na época em que ele sentava na minha frente na sala de aula. Ele abriu os olhos e disse que sempre gostou de mim, apesar do tempo e mesmo quando estava com as outras. Eu queria tanto ouvir aquilo, que acabei apagando a segunda parte e colando o que me interessava na pasta das frases sinceras.  
O tempo passou, me livrei dos diminutivos, mudei de escola, depois de cidade. Ele adquiriu uma barba e abandonou os clichês. Seria crueldade não nos encontrarmos de novo, mas também, e principalmente, seria inimaginável que aquele encontro na praia trouxesse consequências tão improváveis. A partir daquele momento, foi uma sequência semi-infinita de quases. A mão no meu peito, que quase virou sexo, nossos quase beijos e abraços nas despedidas, nosso eterno quase relacionamento. Mas era um quase tão gostoso, que quase passava despercebido, porque era totalmente feliz.
- Mas, e aí?
- A felicidade de um quase sorrateiramente, um dia, vira nada. Nem mesmo todos os lados dele foram capazes de suportar o meu (lado) esquerdo do peito.
- E você acha mesmo que alguém conseguirá?
- Eu ainda acredito em coragem.

Sobre o esquerdo - Talita Oliveira

 “para viver um grande amor direito
não basta apenas ser um bom sujeito
é preciso também ter muito peito
peito de remador”
(Vinícius de Moraes)


4 comentários:

  1. olá, visitei o teu blogue e gostei muito... gosta de significados de nomes??? bem o meu é carlos augusto... "fazendeiro" e "sagrado".. bem.. do sagrado não gosto muito...rs... tanto é que abandonei faz tempo... mas do fazendeiro gosto... metaforicamente.. "planto palavras"...
    grande abraço...

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  2. Que bonito guria. Realmente é preciso ter coragem pra assumir sentimentos e ultrapassar algumas barreiras pra ficar junto. Uma hora essa pessoa vem ou amadurece o suficiente pra voltar/ficar. beijos

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  3. ooi, Gostaria de te convidar a conhecer o meu blog, ele é super novo, e todas nós blogueiras sabemos o quanto é dificil no começo :x se gostarem, se inscrevam e me ajude a divulgar :) beeijos http://neessarochamakeup.blogspot.com.br/

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  4. Vengo del blog de vastoseintensos de Emanuelle Klyss, y me ha encantado tu Rincón; por lo cual, si no te importa, me gustaría ser Seguidor de tan bello Espacio, lleno de Magia, Sentimientos, Sensaciones y Fantasías.
    Un abrazo.

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