13.10.11

Sobre o pretérito e a possibilidade de um futuro imediato



Eu sei que eu falo de amor como se fosse fácil. Pior, como se fosse possível. Mas já foi, e você sabe disso. Para mim, aos dezessete. Para você, aos vinte e poucos. 
Ele morreu tragicamente em um acidente de carro. Ela recebeu um xeque mate. E nós dois? Morremos também, claro. Com uma diferença: você teve escolha, eu não.
Eu encontrei e perdi cedo demais aquele que achava ser o amor da minha vida. Ele não me deixou. Eu não o abandonei. Não brigamos. Ele morrreu. Limpo e seco. Direto e trágico como nenhum final de história deve ser. Cortaram o "felizes para sempre" sem me dar, ao menos, uma explicação. Até então, era só felicidade e sonhos com casinha, cerquinhas, filhinhos e brinquedos espalhados pelo chão. Até então, ele era um jovem engenheiro civil com um futuro promissor, que estava construindo uma miniatura do Taj Mahal pra mim, que me ligava à noite para falar besteira, com a velha desculpa do "boa noite", que ria dos meus erros absurdos e depois que me ajudava a consertar, que me ensinou da forma mais simples e leve possível o significado da palavra amor. Isso até aquela última sexta-feira. No sábado, todas aquelas promessas, bons presságios, futuro compartilhado e castelos foram destruídos. Sem conserto como aqueles dois carros e as vidas que os guiavam.
"Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava. De olhos abertos, lhe direi: - Amigo, eu me desesperava". Talvez não tenha frase que se encaixe tão bem a situação que passei como essa de Belchior.
Antes dos dezoito, tudo já tinha gosto de "tarde demais". Aos dezoito, envelheci.
Tive de largar os meus sonhos, a profissão que queria seguir, a cidade onde nasci, tudo o que havia de melhor em mim... Eu também tinha promessas de um bom futuro. Mas sem ele qual amanhã valeria a pena? Durante cinco anos eu tentei, em vão, responder.
E fiz de tudo para repelir tudo e todos que se aproximavam de mim. Descudei de todos os detalhes relevantes e tratei de ser chata, ácida e baranguda para que ninguém mais no mundo gostasse de mim. Fechava as portas na cara de qualquer desavisado e distraído que tentasse chegar perto ou ignorasse a placa vermelha indicando "PERIGO".
Quando conheci você, reconheci milimetricamente cada pedacinho do meu passado. E não podia ver de braços cruzados a repetição em série dos meus erros.
Por incrível que pareça, nunca tive pretensão de que você tirasse todos os atrasos e marcas que esse luto deixou em mim, nem muito menos que me levasse ao altar.
Durante todo esse tempo eu só queria lutar - de uma forma desesperada, confesso - para que você não abandosse tudo, como eu fiz um dia.
Esse texto bobo é apenas a introdução de uma súplica: pense em você. Em você. 
Eles se foram. Foi triste, cheio de lágrimas e pesares. Mas nós ficamos. E, por mais doloroso e árduo que seja seguir em frente, temos de fazê-lo. Não morremos. Viver foi a única opção que nos restou. Melhor utilizá-la da melhor forma possível, incluindo no pacote os nossos desejos e melhores sonhos.





28.01.2011 às 23:23

10 comentários:

  1. Menina!
    que texto maravilhoso!
    eu adoro te ler sempre.
    beijo

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  2. Erros cometemos todos e é salutar para o aprendizado. Mas tentamos evitá-los e se tivermos que cometê-los novamente, pelo menos que sejam novos, não reoetidos. Ofereço-lhe Cartola (Acontece)

    "Esquece o nosso amor, vê se esquece.
    Porque tudo no mundo acontece
    E acontece que eu já não sei mais amar.
    Vai chorar, vai sofrer, e você não merece,
    Mas isso acontece.
    Acontece que o meu coração ficou frio
    E o nosso ninho de amor está vazio.
    Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
    Ah, se eu pudesse
    Mas não quero, não devo fazê-lo,
    Isso não acontece."

    Abração, Tatlita. paz e bem.

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  3. Não existe forma de aprender mais eficiente do que errar. E em alguns casos, errar pode ser bom...rs

    Beijo, Talita.

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  4. Errar pode ser bom como disse a Luna, mas é sempre ruim quando a gente quebra a cara :/

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  5. Olá Talita !
    Só a frase " Viver foi a única opção que nos restou ". Mostra que vc sempre nos presenteia com este talento que tens de escrever.
    Obrigado por nos proporcionar texto tão maravilhoso.

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  6. no fundo a gente queria que fosse fácil... bem no fundinho a gente queria que fosse realmente bem fácil. Rs...

    beijos

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  7. Quando a gente n tem escolha parece q dói mais, q n vai acabar nunca; mas um novo dia sempre chega.
    Beeeijoos

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  8. bem, continuar seguindo em frente quando perdemos alguém muito importante é difícil. a morte é uma verdade que queremos esconder, mas temos que encará-la. a melhor forma? vivendo.

    beijo

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  9. Nossa, que lindo. É muto 'eu' esse texto
    E esse 'não ter escolha' dói, como dói.
    Beijos flor.

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  10. Linda adorei teu blog.

    se puder me segue e participa do sorteio?

    http://paulinhapiink.blogspot.com/

    beijinhosz♥piink

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