24.10.11

Das tentativas



A gente tenta. O pior é que a gente tenta. Mas os disfarces e joguinhos não costumam funcionar por aqui. Caras, performances, bocas e poses ensaiadas são dissolvidas pelo mesmo sorriso bobo e olhar de saudade. É tão claro e direto, que chego a ficar assustada quando você vai embora e tenho que me encarar no espelho sem reconhecer o que fui minutos atrás.
Na medida do possível, a gente vai levando. Eu aqui. Você aí. E a saudade (sempre ela) no meio. Há sempre um pouco de medo e muito de vontade entre nós. Um medo (infantil, quem sabe?) bem sutil, quase imperceptível. E uma vontade (de coisas e tempos que já ocupam um espaço transatlântico) com vocação para hipérbole.
Essa nossa história tão carente de certezas, sempre transbordou de tantas outras coisas. Fatidicamente vivas e explícitas aos nossos olhos. E que fique bem claro: aos nossos e de mais ninguém. É algo sensitivo e instintivo demais para que se possa explicar ou entender.
Sem mais delongas e tentativas vãs, essa é a hora que o silêncio se eterniza. Essas palavras vão ficar pairando no ar como tantas outras. Para que eu possa me sentir a vontade para usar o clássico sutiã de bolinhas sob o vestido verde e voltar à época em que abraços de vinte minutos e beijos de cinco horas eram a forma mais simples de descrever a realidade.


18.10.11

My week with Marilyn


 Os burburinhos sobre o filme "My week with Marilyn" já vem rolando há algum tempo. Mas, no início desse mês, com o lançamento do trailer oficial , fomos contemplados com uma prévia da atuação de Michelle Williams no papel de Marilyn Monroe. Que, como sempre, não parece ter deixado nada a desejar.
A história do filme é adaptada do livro homônimo de Colin Clark, que teve a chance de ciceronear a diva e mostrar-lhe o lado bom da vida britânica durante uma semana. Isso ocorreu no perído em que ela estava gravando The Prince and the Showgirl.
É inegável e incontrolável a minha vontade de ver esse filme. Agora é só aguardar a estreia nas telonas.

Eis aqui a prévia:




13.10.11

Sobre o pretérito e a possibilidade de um futuro imediato



Eu sei que eu falo de amor como se fosse fácil. Pior, como se fosse possível. Mas já foi, e você sabe disso. Para mim, aos dezessete. Para você, aos vinte e poucos. 
Ele morreu tragicamente em um acidente de carro. Ela recebeu um xeque mate. E nós dois? Morremos também, claro. Com uma diferença: você teve escolha, eu não.
Eu encontrei e perdi cedo demais aquele que achava ser o amor da minha vida. Ele não me deixou. Eu não o abandonei. Não brigamos. Ele morrreu. Limpo e seco. Direto e trágico como nenhum final de história deve ser. Cortaram o "felizes para sempre" sem me dar, ao menos, uma explicação. Até então, era só felicidade e sonhos com casinha, cerquinhas, filhinhos e brinquedos espalhados pelo chão. Até então, ele era um jovem engenheiro civil com um futuro promissor, que estava construindo uma miniatura do Taj Mahal pra mim, que me ligava à noite para falar besteira, com a velha desculpa do "boa noite", que ria dos meus erros absurdos e depois que me ajudava a consertar, que me ensinou da forma mais simples e leve possível o significado da palavra amor. Isso até aquela última sexta-feira. No sábado, todas aquelas promessas, bons presságios, futuro compartilhado e castelos foram destruídos. Sem conserto como aqueles dois carros e as vidas que os guiavam.
"Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava. De olhos abertos, lhe direi: - Amigo, eu me desesperava". Talvez não tenha frase que se encaixe tão bem a situação que passei como essa de Belchior.
Antes dos dezoito, tudo já tinha gosto de "tarde demais". Aos dezoito, envelheci.
Tive de largar os meus sonhos, a profissão que queria seguir, a cidade onde nasci, tudo o que havia de melhor em mim... Eu também tinha promessas de um bom futuro. Mas sem ele qual amanhã valeria a pena? Durante cinco anos eu tentei, em vão, responder.
E fiz de tudo para repelir tudo e todos que se aproximavam de mim. Descudei de todos os detalhes relevantes e tratei de ser chata, ácida e baranguda para que ninguém mais no mundo gostasse de mim. Fechava as portas na cara de qualquer desavisado e distraído que tentasse chegar perto ou ignorasse a placa vermelha indicando "PERIGO".
Quando conheci você, reconheci milimetricamente cada pedacinho do meu passado. E não podia ver de braços cruzados a repetição em série dos meus erros.
Por incrível que pareça, nunca tive pretensão de que você tirasse todos os atrasos e marcas que esse luto deixou em mim, nem muito menos que me levasse ao altar.
Durante todo esse tempo eu só queria lutar - de uma forma desesperada, confesso - para que você não abandosse tudo, como eu fiz um dia.
Esse texto bobo é apenas a introdução de uma súplica: pense em você. Em você. 
Eles se foram. Foi triste, cheio de lágrimas e pesares. Mas nós ficamos. E, por mais doloroso e árduo que seja seguir em frente, temos de fazê-lo. Não morremos. Viver foi a única opção que nos restou. Melhor utilizá-la da melhor forma possível, incluindo no pacote os nossos desejos e melhores sonhos.





28.01.2011 às 23:23

2.10.11

Hands


Não sabia ao certo se segurara aquela mão (com dedos quase sem unhas) para tentar fugir do déjà vu ou se fora aquilo que o causara.
- Ainda rói! – Ela disse com um sorriso incontido e um certo ar de encantamento, como se aquilo fosse a melhor coisa que uma pessoa pudesse fazer da vida.
- É... É o que carrego sempre comigo daquela época. – Ele respondeu com a cabeça baixa.
Os dois sabiam que certos hábitos eram a deixa que podiam usar como disfarce perfeito para transitar no tempo sem medo de flagrante.