16.9.11

Sobre cores e verbos

Fazia muito tempo que eu não tinha vontade de sorrir para nada nem para ninguém,
então era extraordinário que ele conseguisse assim perturbar os cantos de meus lábios.

(Caio F. Abreu - Cavalo branco no escuro)

Não consigo lembrar ao certo dessa parte, mas hoje quando chegou, eu provavelmente estava distraída entre as palavras e sonhos. Talvez passeando pelas paisagens de algum cartão postal que nunca chega.
Você estava de verde. Acho que nunca te disse, mas você fica lindo com essa cor. Diferente do amarelo alaranjado que, intencionalmente, subentende distância, um certo medo e indiferença aos apelos do mundo ao redor. Diferente do branco indeciso, sem saber se é branco mesmo ou cinza, um branco com um quê de transparente ,que por noites ininterruptas serve de abrigo para a sua dor.
Ando aprendendo sobre cores com você.  Cores e verbos.  Já quase consigo fazer a alocação adequada do PRECISAR, QUERER e PODER.
É verdade, eu não PRECISO lhe esperar todas as noites para saber como foi o seu dia e se está bem. Para rir do seu mau humor, rir do seu perfeccionismo, ver você rindo das minhas esquisitices e falta de jeito para quase tudo. De fato, não preciso.  Afinal, o telefone sempre toca e existem tantas distrações e entretenimento ao alcance das mãos.  Mas quem disse que eu dou importância para telefones, distrações, entretenimento e mãos? Eu QUERO algo mais.
Não sei se pelos verbos ou pelas cores. Ou pelos dois e o algo mais. Mas o fato é que você tem me ajudado a ser uma pessoa melhor. Sem que seja necessário procuras, planos mirabolantes ou declarações de amor. Sem toda a complicação que eu sempre achei que fosse obrigatória para que acontecesse. Talvez isso impulsione o verbo PODER a dar a outros tantos verbos cadeira cativa no meu vocabulário limitado.


No play:



(Esse texto eu escrevi no dia 09.01.2011 às 15:52. E postei no "Chiclettes and Cigarrettes" )

10.9.11

Sobre a incapacidade de seguir adiante

Há um tempo atrás eu tinha um blog paralelo a esse, o Chiclettes and Cigarrettes, que nunca tive coragem de assinar como Talita. Aos poucos ele  foi perdendo a razão de existir e resolvi tirá-lo de circulação. Vou tentar compartilhar aqui no Coisa de Menina, aos poucos, alguns textos que mais me marcaram.




"Já não eram mais goles inocentes e reversíveis, era a garrafa inteira. Na verdade, garrafas, que pelas minhas contas eram três, de vinho que ele dizia que era caro com uma certeza de sommelier e me enchia com detalhes que só me faziam ter vontade de engolir aquele líquido como se tivesse sido adquirido em uma mercearia de esquina e custado 3,50. 
Ele falava tanto que não percebia que eu não só estava enchendo a cara, como o saco inteiro com aquele assunto. Afogava toda a dor e tédio naquelas taças bonitas de um vinho que não lembro o gosto nem o nome. E nós não tínhamos ido ali nem para beber e muito menos para falar, mas fizemos os dois com um rigor de forças armadas. Mas era justo, assim como eu não entendia dos vinhos dele, ele não entendia da minha matemática primária, nem das minhas teorias. 
Ele pulou para o jazz, o cinema, o blues, o passado de sonhos fragmentados e todas as possibilidades de sorrisos no futuro. Até que eu já não entendia seus pedidos, suas observações precipitadas e já dançava de olhos fechados pela sala de estar - que tinha um ar explícito de casinha de boneca, mesmo sendo de homem de 1,87m. Eu era apressada demais para a melodia de Astaire e pisava nos meus próprios pés. Abri os olhos, os deles continuaram fechados.
Quando segurou forte a minha mão, eu sabia que aquele seria apenas o primeiro passo para o escuro. Algo em mim suplicava para que não tivesse mais volta. Não voltar era justamente o que eu precisava. E eu queria que aquela noite durasse a vida toda, porque eu sabia que se ela acabasse, involuntariamente e sem direito de defesa ou contestação, eu voltaria para você. Para você que está distante ou sequer existe. E é, justamente, por conseguir prever o final que eu sempre impeço os inícios. "




letra



01.03.2011 às 05:32

7.9.11

Ah, o amor?



Ah, não... Logo de amor? Isso é golpe baixo. Eu pedi para você quebrar aquele silêncio com um assunto qualquer, porque achei que ainda restava um pouquinho de criatividade dentro dessa sua cabeça cacheada. Mas, como sempre, errei feio.
Ontem eu vi e ouvi a palavra ‘sexo’ trezentos milhões de vezes, por causa do dia que dedicaram a ele, o Sexo. Agora você vem falar de amor. Por favor, não me confunda. É mais do que eu posso suportar em menos de 24 horas.
Por que você não cantou com essa sua voz rouca alguma música do Chico Buarque? No mínimo, iria me fazer sorrir. Também podia ter falado da academia, eu falaria dos meus treinos, iria zoar a ausência de músculos definidos no seu corpo, apesar do seu tamanho esforço e dedicação, mas eu sou assim (rio de tudo) e você até gosta. Era permitido falar do seu Blackberry novo, do sucos verdes que você toma, das suas viagens imaginárias. Eu poderia falar do meu passado, dos meus erros de Português, da minha impaciência. Ah, tinha o tempo. Por que você não falou do tempo? Não é a melhor opção nem , muito menos, a mais criativa, mas ainda assim é uma opção e por essa vertente que muitas pessoas se livram de maus bocados quando as palavras se esquivam. Mas de amor? Poxa, amor, assim você quebra minhas pernas (e coração).
Tá bom, tá bom, eu me rendo. Se quiser falar de amor, a gente fala, só que outro dia, em outra encarnação, no planeta Três Pontinhos. Até lá, terei tempo suficiente para cuidar do embasamento teórico. Sou uma pessoa que precisa ter bons argumentos. Hoje seria impossível, é 7 de Setembro e não tenho costume de trabalhar em feriados.
Enquanto isso, vamos tentar outra coisa. Vem aqui e me dá um abraço (ou um beijo), porque você é péssimo em matéria de palavras. E eu, péssima em questão de amor.



Sixpence None The Richer - Kiss Me