31.12.10

Outside

 

Sempre sente que precisa de um pouco mais de blush na face e de peito para preencher o decote. E é assim que sempre começam os dilemas da tortuosa vida de Olga. Noites difíceis, aquelas. Onde a necessidade de agradar sobrepõe-se a qualquer resquício de amor-próprio. Onde as oitocentos e cinqüenta e quatro roupas do armário tornam-se incapazes de ajudá-la a produzir uma aceitável imagem no espelho. Sempre culpa do volume dos seios, ou ausência deles.

Depois de anos de análise, a doce e sinuosa menina descobriu que esses eram seus melhores e maiores motivos para desistir. Das noitadas, sorrisos congelados e abraços e braços fugidios no final da noite.

Não importa quão grande fosse seu medo de enfrentar a realidade, ela sabia que com faces rosadas e busto à vista, tudo fica mais fácil de encarar. Sejam guerras internas ou um possível amor.

Ensaia poses. Bocas. Caras. Cantarola alguma verso de I wanna hold your hands, talvez tenha sido esse mesmo, três ou quatro vezes, quase como um mantra. E lembra que precisa ser forte. Concentra-se novamente nas caras e bocas. Cruza as pernas e procura alguma forma de parecer sensual. A noite parecia propícia para assumir esse papel.

Enquanto espera, senta no bar e sente-se como se já se tivesse secado três garrafas e meia de vinho. Prefere não se arriscar e pede um Martini. Mais uma vez concentra-se e tenta externar o seu espírito e instinto Mimi Rogers.

Era ele. Qual deles? No fundo e a essa altura do campeonato, isso é o que menos importa. A embriaguez é o foco, a companhia há tempos tornou-se mero detalhe. Isso ocorre desde que destruiu o que ainda restava dos argumentos para permanecer em uma vida a dois. Era o que precisava ser feito para poder pisar firme e ir além dos tijolos amerelos de Dorothy.

E foram conversas. Talvez abraços. E mesmo assim, aquela distância abismal já tão presente e conhecida de meses - quem sabe, anos. Mas nada tão real e convincente quanto o vento noturno que entrava sorrateiro e brincava de leve com os seus cabelos claros.

E tudo que começa com o blush e peitos, sempre acaba no final daquela mesma calçada. As mãos já desconectadas. Ela segue adiante. Ele dobra a esquina. Tão óbvio. Tão clichê. Sem pontos ou vírgulas. Sem emoção. E decisivo.

29.12.10

Para o Ano Novo




2011,

Não irei te chamar de querido, porque você pode não gostar de certas intimidades. Mas tenho que confessar que desde que 2010 chegou, ando ansiosa pela que você venha substituir o lugar dele. Porque, no fundo, eu sabia que a convivência com ele não seria das mais fáceis. E que você seria minha melhor alternativa de salvação.
Não vou te contar os detalhes, porque essa não é hora nem momento. Não simpatizo mais com a idéia de acionar o replay ou repet. Não há nada mais angustiante do que reviver os maus momentos. Que eles fiquem grudadinhos em suas devidas datas de 2010 e não voltem nunca mais, nem mesmo em pensamento. Também não quero ficar relembrando o que foi bom. Ao invés disso, quero viver outros adoráveis momentos, com cheiro de novo. Prefiro que os espaços vazios sejam preenchidos assim.
Também não quero entregar a você uma lista imensa de pedidos e desejos. Não pretendo que seja pesado. Desejo apenas a estranha e leve sensação de ser feliz. Assim mesmo, sem mágicas e ações miraculosas, apenas com a simplicidade de ser.
Não irei esperar sua chegada na praia. Dessa vez será sem roupas brancas e penduricalhos e reza braba. Ando cansada de acreditar que pulinhos em ondas e simpatias serão a panacéia para a minha vida. Ficarei em casa, de pijama, com os olhos fechados e orações simples no coração. Porque acredito que é justamente de lá que brota toda a energia e motivação para que você seja pleno. 

Beijos,

21.12.10

Pés no chão




Andei ausente, eu sei. Fiquei sem escrever e isso nunca é bom. Porém, dessa vez, foi preciso. Não sei se justifica, mas mudei de cidade e de trabalho. Tive que concluir uma monografia, fazer um relatório de estágio e pagar uma disciplina medonha de Administração Financeira para, enfim, tornar o vislumbre de uma formatura, realidade.
Todos esses anos que passei fora foram bons, mas voltar para casa foi melhor ainda. Uma espécie de reencontro com a paz , com tudo de bom e belo que há em mim.
Tinha esquecido de tantas coisas. Do cheiro do meu travesseiro, de como é bom dormir em uma cama de solteiro sem ter um espaço vazio ao lado. E, principalmente, de uma força que habitava em mim, mas por ter passado tanto tempo em desuso já estava empoeirada.
É fato que colocar os pés no chão também me fez sentir muitas saudades. Não da cidade, dos lugares ou da faculdade. E sim, das pessoas que deram cores e vida a esses quatro anos e meio que se passaram. Daquelas pessoas guerreiras que não usaram as adversidades para se lamentar, que encaram todos os desafios de peito aberto e sem pena ou lástimas ao se olhar no espelho. Com eles e por eles, tudo valeu a pena.
Ainda não sei direito o que escrever. São tantos sentimentos e momentos juntos que acho que não saberei separá-los por categorias em palavras para que vocês possam entender.
Faz dois meses que me mudei, e só agora terei tempo de tirar as coisas das caixas e malas e encaixar em seus devidos lugares. É claro que responder os e-mails também está na minha wish list (de 2010 ainda).
Agradeço a todos pelos e-mails afetuosos, pelo carinho e preocupação. Mesmo sem saber, de fato, o que havia ocorrido, mandaram uma baita força. Nesses últimos meses, pude perceber que não tenho seguidores de blog, mas companheiros de caminhada.