25.10.10

Intocável





Mais uma vez vai soar estranho e vou ter que pedir desculpas no final por essa incontida sinceridade. Mas você há de concordar comigo que mocinhas de jeans e havaianas não fazem por merecer andar de mãos dadas com geniozinhos de gravata e paletó. Essa minha casualidade e falta de trato não combinam em nada com os palácios que você veio construindo ao longo do tempo.
São tantas salas vazias, que a minha pequena estatura não conseguiria preenchê-las. Vai contra o senso de estética. Ficaria totalmente desproporcional.
Também não sei fazer par romântico com os personagens que você inventa, aliás, que você copia. Eles já existem há muito tempo e já habitaram os meus e tantos outros sonhos infantis.
Não há um novo roteiro e, pelo que percebi, a próxima estréia foi, mais vez, cancelada. O meu lado egocêntrico não permite que eu faça cena em um filme onde não seja o personagem principal. Pelo menos, na minha própria vida, não me permito ser coadjuvante e nem assumo a autoria de roteiros inconsistentes.  
Já que a sinceridade está em pauta, devo confessar também que acho estranho você afirmar que se sente completo e com a sensação de dever cumprido. Que morte já pode chegar. E tantos outros blá, blá, blá. E logo em seguida sair correndo para poder dar conta dos seus 47 empregos e meio. Se é para esperar a morte, que seja, pelo menos, com um amor bem lindo ao lado, de pernas para o ar e na praia. Nenhuma pessoa realizada tem tanta ânsia por realização.
Consegui, em tempo recorde, desvendar todos os teus segredos não confidenciados e suas estratégias de jogo. Pela primeira vez na vida, preferia ter ficado na vontade. Com a ilusão causada pelo seu discurso ensaiado.
Enquanto você continua sentadinho na última prateleira da estante, o Sol grita o meu nome, pois existe toda uma realidade para ser vivida. Enquanto profere suas palavras falhas, a vida pede mais ação. Entre sonhos confusos e distantes e a dura realidade, eu fico com a última. Com esta já aprendi a lidar.
O fascínio pelo intocável sempre passou bem rápido, dessa vez não seria diferente. 

23.10.10

Apenas uma chance





Eu passei aquela noite inteira tentando fugir, desviar o olhar, ser forte e fingir que existiam coisas ao meu redor mais importantes do que aquele sorriso. Fiz um esforço tremendo e fiquei o tempo inteiro com uma cara neutra - que só de lembrar me dá nojo da minha covardia, do medo daquela louca atração que estava sentindo.
Tudo o que eu mais queria era aproveitar aquele momento, desligar ou pelo menos diminuir o ritmo do meu cérebro ansioso e fingir que o amanhã só acontece realmente amanhã. Mas não consegui. É isso mesmo! Aquela menina que um dia foi só impulsos, parece que resolveu fugir de dentro de mim. Fiquei sozinha sendo “mulher” o bastante para controlar meus desejos, aprisionando até as mais simples vontades.
É inevitável não sentir vergonha de mim, saudades de mim. Fico procurando toda coragem que tinha para encarar tudo que a vida me proporcionava. De ir em frente e ser feliz, nem que fosse por um breve momento. No outro dia eu poderia olhar no espelho e sentir orgulho,pois por mais que visse no reflexo uma cara toda quebrada e coberta por lágrimas, por pior que fosse o aspecto dela, mesmo assim , ainda seria a minha cara. A única. Ainda assim,  poderia enxergar naquele reflexo uma limpa e bela trindade: corpo,alma e coração. E poderia sentir orgulho por ter sido eu mesma.
Agora estou aqui insone, confusa, sentindo uma coisa repulsiva que nenhum ser humano deveria: ARREPENDIMENTO.  Milhões de “se” invadem a minha mente. “Se eu tivesse beijado.” “Se eu tivesse abraçado” “Se não tivesse sido omissa” “Se tivesse sido eu mesma” “Se..” . Acho que esses “se” são sempre proporcionais à covardia. E no meu caso parece que foi infinita.
Fora meu lado covarde, um outro (meio) motivo pelo qual não dei o beijo tão esperado, um abraço bem apertado, foi por ele ser uma pessoa ilimitada, aquele tipo de gente que não tem as qualidades expiradas no final da noite, alguém com a qual poderíamos passar uma vida inteira e ,mesmo assim, o tempo ainda seria insuficiente para viver tudo desejado. É um alguém quase vício.
Às vezes penso que talvez tenha feito certo. Afinal, água na boca, situações incompletas e mal resolvidas conseguem me deixar pior do que o tal do arrependimento.
Certa ou não. Vou ter que confessar que daria tudo por uma segunda chance E vocês que me perdoem, mas hoje vou ser clichê. Ser igual a todo mundo e querer quando já não tenho mais. Dando valor apenas quando perco.
Vou fazer promessas. Acho que não custa nada. Para falar a verdade, acho que custa muito. Ele custa. É valioso, coisa rara, jóia ímpar. Só que dessa vez pago o preço. Até mesmo o de ser uma boa menina. Serei por toda vida ou só por hoje, se ele quiser. Como quiser. Prometo.



21.10.10

Balança, mas não para





Há momentos em que aparecem abismos em nosso caminho. Seria mais fácil se fossem curvas, pedras, talvez areia movediça. Mas não. São abismos mesmo. E é nesse exato momento que vida pede ação, exige que decisões sejam tomadas. Ela grita. Curta e grossa. Ou vai ou fica, menina! Eu costumo ir. De olhos fechados e peito aberto.

As coisas já não estavam mais tão agradáveis, nem tão incríveis como deveriam. Faltava o combustível: a paixão. Levantar da cama já estava difícil. O dinheiro na conta no final do mês, já não compensava os sacrifícios. Até o café parecia mais amargo que o habitual. O momento oportuno apareceu e dei um basta em toda essa situação. Não dava mais para ficar de espectadora vendo pessoas praticando e torcendo pelo mal dos outros – inclusive o meu. E o pior, gratuitamente, pelo simples prazer de contribuir para desgraça alheia. 

Felizmente, não são todos que andam espalhando por aí maus cheiros e obrigando os outros a engolirem o seu azedume. Ainda existem aqueles com luz própria, que irradiam com seus sorrisos, que torcem e contribuem para felicidade dos outros. A esses, eu deixo meu profundo agradecimento. Por conseguirem, em um mundo estéril e solitário, fazer toda a diferença. Esses seres sublimes já guardei na mala para levar comigo.

Agora a regra do momento é não ter regra. É escutar o som, deixar o coração levar. Afinal, a vida é leve e o meu escritório agora é na praia. Literalmente. Preciso de mais? Sempre precisamos. Mas esse é o momento de aproveitar o PRESENTE, em todos os significados que essa palavra pode ter. 

Aprendemos a encarar bem os abismos quando percebemos que a vida é vôo livre. E apesar dos riscos inerentes ao processo, ‘ela balança, mas nunca pára.’