3.9.10

A culpa é nossa




Já faz uma semana que tudo ocorreu e eu ainda acordo com o gosto azedo da realidade na minha boca. Não existe creme dental, anti-séptico bucal, pastilha, chiclete ou reza braba que faça tirá-lo daqui.
Talvez existam cores mais prováveis, mas foi o vermelho que deixou esse gosto em mim.
Há exatos sete dias atrás, eu estava voltando da praia com uma amiga, o som do carro estava alto e tínhamos nossos melhores sorrisos no rosto quando paramos em um sinal qualquer. De repente, surgiu um menino meio que de lugar nenhum e nos abordou pedindo algum trocado. Dei a ele o único dinheiro que existia na minha carteira no momento: R$ 5,00.
Até o sinal mudar da cor vermelha para a verde, tive tempo suficiente para presenciar a maior felicidade do mundo surgir nos olhinhos iluminados e pulos altos de comemoração daquele menino. Aqueles pulos, normalmente, só seriam proporcionais ao dinheiro do prêmio da Mega Sena acumulada.
Ele estava nas nuvens e eu apenas com o queixo grudadinho no chão. Fiquei perplexa e, por vários minutos, sem palavras. Nunca pensei que algo tão simples pudesse tocar alguém assim.
Dói bastante ter que confessar como a minha visão do mundo é limitada e o meu egoísmo imenso.
Dói mais ainda saber que na noite anterior ao ocorrido, gastei dez vezes mais só para entrar em uma boate, fora o que foi gasto antes, durante e depois para deixar completa a animação. Tudo isso apenas para brincar de ser feliz.
Seria mais fácil se todas as outras pessoas fossem diferentes de mim. Mas, infelizmente, a grande maioria não é.
O mundo vai caminhando para destruição e a única preocupação é com as nossas próprias vidas, nossos desejos, futilidades e ambições. Vamos sempre fingir que a culpa dos problemas é do vizinho, da pessoa sentada ao lado, do marido, da esposa, do patrão, do empregado, de algum político qualquer, enfim, a nossa mira sempre estará apontada para o primeiro alvo que aparecer na nossa frente.
Assim, e só assim, ficará mais fácil dormir chorando por algum idiota que, provavelmente, no mês seguinte não terá nenhum significado. A vida poderá continuar light e as calorias do iogurte poderão ser contadas automaticamente no café da manhã. Aquelas comprinhas “básicas” poderão ser realizadas sem qualquer pressão psicológica ou social. Entre outras coisas que prefiro que fiquem explícitas apenas na consciência de cada um.
Porque enquanto isso, muitos contam as horas para chegar o momento em que irão comer (Sorte quando chega este momento). Outros tantos além de não ter comida também não têm onde dormir. Esses, sim, têm motivos para chorar. E, por incrível que pareça, não choram. Eles agradecem por ainda ter calçadas como camas, papelões como colchões e jornais como lençóis. Sem falar dos doentes, do que sofrem violência, dos que praticam violência, dos que vendem e dos que usam drogas... Sem falar em outros males que existem, mas que nem consigo imaginar.
Francamente Talita, cada me decepciono mais com você, com esse seu comodismo, egoísmo e inutilidade. E também com todos vocês, que estão lendo este texto, e são iguais a mim.
Bem lá no fundo, na obscuridade da nossa consciência, sabemos que essa culpa já tem dono. Ela é nossa! E de mais ninguém.
Espero que o vermelho consiga surtir efeito contrário do que costuma em nossas vidas. Tudo depende do ponto de vista. Quando estamos com os pés no chão, o vermelho do sinal nos permite seguir.



14 comentários:

  1. Muito realista esse teu texto, um depoimento de como desmascaramos nosso próprio egoísmo. um dia mudaremos algo, mas parados não podemos ficar. beijos

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  2. Mto bom seu texto!
    Faz a gente pensar e re-pensar no que podemos fazer.
    Mesmo que nao seja mto, ja eh alguma coisa.
    Meu coracao corta qdo vejo alguem pedir alguma coisa; e algumas vezes eu ja ignorei por ver que a pessoa agia de má fé, mas dps quase morri de remorso, pois eu tinha q ter feito a minha parte independente se a pessoa agia de má fé... enfim, sempre que posso eu ajudo de alguma forma! msm sendo pouco eh como eu posso neh!
    E eu acho q isso importa.

    Bjos

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  3. Vi ontem um bicho
    Na imundície do pátio
    Catando comida entre os detritos.

    Quando achava alguma coisa,
    Não examina nem cheirava:
    Engolia com voracidade.

    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.

    O bicho, meu Deus, era um homem.

    (O Bicho, Manuel Bandeira)

    "Quem sabe faz a hora..."

    Perfeito, Talita. Meu abraço. Paz e bem.

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  4. Talita, que texto maravilhoso e realístico. ;*

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  5. é dessa reflexão que parte a necessidade, daquela velha frase cada vez mais repetida...

    se cada um fizesse a sua parte...

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  6. .

    Lindo seu texto!

    Nos mostrando uma realidade cruel e o egoísmo ao qual nos submetemos, mesmo sem o saber.

    Bastante reflexivo.

    Cabe realmente a nós mudar essa realidade, primeiramente sabendo escolher nossos líderes e fazermos também nossa parte individualmente.

    Parabéns pelas belas palavras.

    Beijos a ti. Muita luz.

    .
    .

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  7. Infelizmente não podemos mudar o mundo
    =/


    Bom início de semana!

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  8. As vezes precisamos de um sinal vermelho para parar e pensar, e o mais importante agir depois!

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  9. Tudo sempre depende de um ponto de vista... haha...adorei o texto!

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  10. nossa, eu sei exatamente o que você quis dizer.
    amei aqui.
    um beijo.

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  11. Awn, veja bem Talita, adorei seu texto e faz uma crítica forte e importante. Mas acho que deve existir um equílibrio pra tudo, claro, nós temos uma parte nessa culpa, porém não é nossa total culpa. Não adianta eu assumir toda a culpa e esquecer do que o sistema faz com a gente. Tipo, daqui, no máximo, há alguns meses sua indignação poderá ser outra, pq isso, de certa, forma, já se tornou tão normal na nossa sociedade que não marca tanto assim. Pelo menos esse é meu ponto de vista.

    Beijos.

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  12. Oi! Sou seguidora antiga que mudou de nome e de blog por motivo de força maior, depois ñ deixe de conferir minha nova casa aqui: http://descoladapina.blogspot.com

    Beijao!

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  13. Quase não visito blogs, Talita, mesmo os de pessoas que visitam ou seguem o blog do qual participo. Mas a Anga, um de meus três parceiros do DS, viu o seu comentário na minha postagem e veio até aqui. Enxerida ela, não? E é muito, se mete em tudo e em todas! Mas às vezes isso é bom, como foi o caso agora. Graças à intromissão dela, que veio e gostou muito do que viu, é que estou aqui.

    Gostei também, claro, senão não estaria comentando. Neste post, por exemplo, você dá um show. E não me refiro à escolha do assunto abordado, nem à pertinência ou não da sua posição em relação a ele. Falo - e imagino que você já tenha percebido aonde eu quero chegar - da sua habilidade em cutucar o leitor sem ser indelicada. E... acho que não preciso dizer mais nada, né? Apontar o gato (a gata, no caso...) já basta: não vou entregar onde, como e em que momento ele(a) pula...

    Voltarei com mais calma (e menos sono!) outra hora.

    Um abraço

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  14. noooossa!
    eu já passei por situação parecida. =/
    uma pessoa veio falar comigo, chorando muito, e nada me comove mais do que isso. o choro.
    e ela começou a me falar, que amava demais um rapaz, que ela fez besteiras ao lado dele, só que depois ele destruiu a vida dela, por que passou AIDS pra ela. E ela pedia qualquer coisa pra eu ajudar a 'prolongar' o dia dela.
    até hoje sinto uma vontade imensa de chorar por causa dela.
    Dei tudo o que tinha, acho que uns 20 e alguma coisa. Ela me olhou com uma felicidade, ... perguntou se podia me abraçar... ( todo mundo olhando pra mim e pra ela, meio que com nojo. )
    mas não me importei. Abraçei sim!
    E isso mudou a minha e a vida dela, se todos perdessemos 5 minutos da nossa vida com o outro... o mundo melhoraria. Tenho certeza!

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