25.9.10

Feche os olhos e sinta


As últimas horas foram recheadas de emoções, nem tão boas como eu vinha supondo. Por isso e por tantos outros motivos implícitos que ainda estou aqui parada, tentando digerir tudo o que aconteceu.
Que as nossas frustrações são proporcionais às nossas expectativas, eu concordo plenamente e até assino embaixo ou onde quiserem. Mas será que vem no manual de instruções algum tópico dando maiores informações de como devemos reprimir essas demolidoras expectativas? Preciso saber urgentemente, pois estou tendo uma absurda dificuldade em associar teoria e prática. Como gostar de uma pessoa e não esperar ou, no mínimo, desejar que ela sinta o mesmo? Como farei para andar se os dois pés sempre terão que estar atrás?
Acho impossível e totalmente improvável viver integralmente de olhos abertos. Vigiando e monitorando atentamente tudo o que reserva o futuro e, principalmente, o presente.
O momento parece oportuno, eu o agarro. Dessa vez não foi diferente. Perdi a aula em que ensinaram a guardar desejos e oportunidades para depois.
È fato que a cara quebrada já vem inclusa. Tudo bem. Acredito que este ingrediente também faz parte da receita. Desconheço vencedores que não carregam por aí suas cicatrizes expostas.
Sabia que estava por minha conta e risco. Criar meio mundo de ilusões por meia dúzia de palavras bonitas é um tanto quando infantil, para não dizer absurdo e perigoso. Mas, infelizmente, ainda não consigo reprimir esse minha mente flutuante e hiperbólica.
E nesse dedilhar tortuoso, perdi o momento exato em que tudo acabou. Romantizei tanto que perdi a noção da realidade. Era um jogo de cartas marcadas e não percebi. E o final não poderia ser outro para quem não sabe jogar.  
Com tudo e apesar de tudo, faria exatamente igual. Sala de espera não é o meu lugar. No meu peito não sobra lugar para dúvidas. Todos os espaços encontram-se preenchidos.
Aos olhos de muitos, sonhos podem ser bobagens. Mas fazem parte de mim. Como já disse a Eva no Fabuloso Destino de Amelie Poulain: "Les temps sont durs pour les rêveurs". É, querida Eva, os tempos estão mesmo difíceis para – nós – os sonhadores. Contudo, continuarei acreditando que chegará o dia em que poderei sonhar de olhos abertos e beijar de olhos fechados. 






♪♪ ouvindo Somewhere Only We Know

18.9.10

Não queria parar


Em poucos instantes, após conhecê-lo, percebi que era um ser autêntico, intenso, liberto da típica preocupação por agir assim.
Inspirava, expirava, exalava uma indeterminada liberdade.
Parei, pela primeira vez naquela noite. Deu um frio na barriga, um medo, uma vontade enlouquecedora de sair correndo para bem longe daquele local e, principalmente, daquela presença. Contradizendo a minha curiosidade, o desejo de chegar um pouco mais perto. Poder tocar.
Parecia nunca ter visto um espelho diante de mim. Talvez não tenha visto mesmo.
Naquele baile de máscaras, aquele garoto era um dos poucos que não hesitava em mostrar seu rosto. Ele não disse, mas eu sei que estava desafiando toda aquela superficialidade.
Em meio a todas essas descobertas o som rolava e nós cantávamos, pulávamos, suávamos, beijávamos...
Um beijo. Não na boca. No rosto. E tudo poderia começar com toda essa sutileza.
Ele olhava, apontava e sorria. Sem (ou com) explicação ele sorria, ria. *Parecia não querer parar.
E mais uma vez, por um breve instante, eu parei. Tudo parou.Eu parada. O mundo girava e ele de uma forma surreal apenas olhava.
A festa acabou. Todos foram embora. E não parecia ser o fim.
Houve a ausência do tchau,do adeus. Era um sinal. Tenho certeza que era um sinal. Não houve adeus.





♪♪"Parece não querer parar
Não quer parar
Não vai parar"♪♪

13.9.10

Primavera em mim


Ele veio nos primeiros segundos de Setembro. Eu já previa, Setembro tem dessas artimanhas. Sabe o exato momento e lugar onde as flores devem crescer. Sabe quando viramos borboletas e podemos voar.
Confesso, também tem suas contradições. O calor de dentro derrete tudo, exceto os lindos jardins. A policromia continua intacta. E toda a escuridão de agosto escorrega sorrateiramente para o lixo juntamente com a folhinha do calendário.
E nada mais é inerte. Gira, sol! Gira! E faz o meu mundo vibrar.
E vibrou. Estremeceu. (Desejos são atendidos em meses assim).

Chegou arrombando tudo e, por incrível que pareça, com a educação adquirida em toda uma vida. Não me perguntem como isso é possível. O mundo de possibilidades dele está além do meu entendimento. Deve ser lago importado da Terra do Nunca, do Sempre... São segredos de um coração constante no seu pulsar.
Onde sonhos confundem-se com realidade. São tangíveis. Tem vida e muita cor. Sonhos de passos primaveris.
Possibilidades de risos começam a surgir. São antecedidos por lágrimas escancaradas. Pois felicidade é uma coisinha espaçosa que, além dos lábios, precisa atacar os olhos, coração... "Invade e fim”.
As mandingas, penduricalhos e rezas de agosto continuam para que Setembro invada outubros, novembros, dezembros e, principalmente, o novo ano que virá. Como uma boa música no repet, alegrando ininterruptamente corações.


Que seja perene. Forte. Doce. Pleno em todo querer.





"É difícil não gostar de um homem
que não apenas nota as cores, mas fala delas."
( Trecho do livro A menina que roubava livros )

3.9.10

A culpa é nossa




Já faz uma semana que tudo ocorreu e eu ainda acordo com o gosto azedo da realidade na minha boca. Não existe creme dental, anti-séptico bucal, pastilha, chiclete ou reza braba que faça tirá-lo daqui.
Talvez existam cores mais prováveis, mas foi o vermelho que deixou esse gosto em mim.
Há exatos sete dias atrás, eu estava voltando da praia com uma amiga, o som do carro estava alto e tínhamos nossos melhores sorrisos no rosto quando paramos em um sinal qualquer. De repente, surgiu um menino meio que de lugar nenhum e nos abordou pedindo algum trocado. Dei a ele o único dinheiro que existia na minha carteira no momento: R$ 5,00.
Até o sinal mudar da cor vermelha para a verde, tive tempo suficiente para presenciar a maior felicidade do mundo surgir nos olhinhos iluminados e pulos altos de comemoração daquele menino. Aqueles pulos, normalmente, só seriam proporcionais ao dinheiro do prêmio da Mega Sena acumulada.
Ele estava nas nuvens e eu apenas com o queixo grudadinho no chão. Fiquei perplexa e, por vários minutos, sem palavras. Nunca pensei que algo tão simples pudesse tocar alguém assim.
Dói bastante ter que confessar como a minha visão do mundo é limitada e o meu egoísmo imenso.
Dói mais ainda saber que na noite anterior ao ocorrido, gastei dez vezes mais só para entrar em uma boate, fora o que foi gasto antes, durante e depois para deixar completa a animação. Tudo isso apenas para brincar de ser feliz.
Seria mais fácil se todas as outras pessoas fossem diferentes de mim. Mas, infelizmente, a grande maioria não é.
O mundo vai caminhando para destruição e a única preocupação é com as nossas próprias vidas, nossos desejos, futilidades e ambições. Vamos sempre fingir que a culpa dos problemas é do vizinho, da pessoa sentada ao lado, do marido, da esposa, do patrão, do empregado, de algum político qualquer, enfim, a nossa mira sempre estará apontada para o primeiro alvo que aparecer na nossa frente.
Assim, e só assim, ficará mais fácil dormir chorando por algum idiota que, provavelmente, no mês seguinte não terá nenhum significado. A vida poderá continuar light e as calorias do iogurte poderão ser contadas automaticamente no café da manhã. Aquelas comprinhas “básicas” poderão ser realizadas sem qualquer pressão psicológica ou social. Entre outras coisas que prefiro que fiquem explícitas apenas na consciência de cada um.
Porque enquanto isso, muitos contam as horas para chegar o momento em que irão comer (Sorte quando chega este momento). Outros tantos além de não ter comida também não têm onde dormir. Esses, sim, têm motivos para chorar. E, por incrível que pareça, não choram. Eles agradecem por ainda ter calçadas como camas, papelões como colchões e jornais como lençóis. Sem falar dos doentes, do que sofrem violência, dos que praticam violência, dos que vendem e dos que usam drogas... Sem falar em outros males que existem, mas que nem consigo imaginar.
Francamente Talita, cada me decepciono mais com você, com esse seu comodismo, egoísmo e inutilidade. E também com todos vocês, que estão lendo este texto, e são iguais a mim.
Bem lá no fundo, na obscuridade da nossa consciência, sabemos que essa culpa já tem dono. Ela é nossa! E de mais ninguém.
Espero que o vermelho consiga surtir efeito contrário do que costuma em nossas vidas. Tudo depende do ponto de vista. Quando estamos com os pés no chão, o vermelho do sinal nos permite seguir.